7 de julho de 2015

Ambientalistas e moradores do bairro Demétria e arredores se unem pelas ZEPAMs!

Uma ampla e articulada frente de moradores e ambientalistas (do bairro Demétria e arredores) se uniu nos últimos meses com o intuito de garantir a preservação da fauna, matas e águas do município de Botucatu, frente à sanha devoradora dos interesses da especulação imobiliária descontrolada.
Esse grupo propôs ao executivo da prefeitura (através do site especialmente aberto à propostas de aditivos ou modificativos ao PDP2015) e à Câmara de Vereadores (Comissão do Meio Ambiente) que o modificativo ao PDP 2015 já traga no seu escopo delimitadas 4 Zonas Especiais de Proteção Ambiental (são elas: ZEPAM das águas; ZEPAM das matas; ZEPAM  Nascentes do Tijuco Preto; ZEPAM Nascentes do Lavapés-Floresta Estadual), uma Área de Interesse Sócio Ambiental (ZEISA Demétria), e um Corredor Agro Ecológico.
Vejam as fotos de cada uma delas nos mapas abaixo e participe de todas as ações coletivas que estarão sendo propostas em defesa das mesmas (um clique sobre as imagens para ampliar)!:










1 de julho de 2015

A Revisão do Plano Diretor de Botucatu. 4 – Botucatu: escolhas ou sobras?

 Botucatu: escolhas ou sobras? (por Pôla Pazzanese)


Imagem do Google
Na conclusão dessa série de postagens sobre o PDP 2015 de Botucatu iremos apurar alguns pontos fundamentais para levarmos a discussão adiante e, principalmente, a tempo.
1- Uma boa parte das dificuldades que todos encontram no seu dia-a-dia ocorre por falta de definição clara do que se deve e do como se deve fazer. De pequenas questões localizadas a temas maiores que afetam a muitos. E nos problemas de grande influencia para grupos maiores de pessoas, como em políticas públicas, isso também ocorre por se confundir o debate e o esclarecimento, necessário nas decisões democráticas, com questões e disputas pessoais, constrangedoras nas relações sociais, evitando assim se estabelecer limites e procedimentos claros em assuntos que afetarão a todos depois. E isso faz com que muitos problemas do dia-a-dia se prolonguem desnecessariamente: de uma sala de aula a um sistema educacional, de um consultório a um sistema de saúde e saneamento, de uma loja a um sistema de logística, de um escritório a um sistema empresarial, de um jardim a uma paisagem, de uma casa a uma cidade.
2- Por isso, mesmo com o pouco tempo para participação, é muitíssimo importante que o maior número possível de pessoas saiba e participe desse processo. Com um plano que só atende parcialmente as necessidades da cidade e território e mesmo que dure poucas gestões de governo, todos sofreremos suas consequências. Apenas no caso aqui da Demetria, aparentemente tão isolada da cidade, por exemplo, só entre 2008 e 2013, 5 anos apenas, a cidade avançou metade do caminho do Jd. Aeroporto até ela: Com loteamentos segregadamente "populares" (ver postagens anteriores), no que é uma Zona de Interesse Socioambiental, cujo parcelamento é de 4.000 m2 por razões ambientais. E é um bairro com muita gente que mora, estuda, trabalha, frequenta, usufrui etc., com plena condição de saber mais, colaborando assim para a manutenção (ou defesa? ou desenvolvimento?) de suas tão decantadas qualidades.
3- Como se trata de uma revisão do Plano existente, é fundamental uma comparação entre ele e a proposta de mudanças de agora. Para tanto, precisamos de mais tempo para que mais pessoas e instituições possam vê-los lado a lado. A proposta atual de tratar a cidade por Eixos, por exemplo, dificulta a compreensão do que, como, aonde e porque será modificado o existente.
4- Diversos setores da sociedade não estão devidamente representados, ou não foram devidamente consultados, nos levantamentos e decisões dessa revisão. Pessoas, grupos e setores ativos na Educação, Saúde, Agricultura, Arquitetura e Urbanismo, Ambiente etc., podem e devem ser ouvidos, pois muitos contam com trabalhos relevantes na história e desenvolvimento da cidade e da região. É justamente numa hora como essa que muitas contribuições, embasadas por anos e anos de experiências de aplicação na realidade e reflexão sistemática, podem ser agregadas às políticas públicas de Botucatu.
5- O bom trabalho de coleta e análise de dados que embasa essa revisão precisa ser mais completo e levar em conta dados de pesquisas e estudos que estão à disposição: eu mesmo tive acesso a diversos deles, durante a pesquisa para estas postagens, que nota-se que não foram tomados como fontes. Devemos buscá-los e trazê-los para referenciar melhor as análises e embasar mais adequadamente diversas estratégias de gestão e a consequente proposição de leis.
Com isso, aquelas imagens da 1ª postagem dessa série começam a ficar muito mais próximas de serem realizadas.
Como disse um amigo recentemente, "... quero uma velhice de escolhas, não de restrições...". Falava de suas decisões sobre cuidados na saúde mental e física, aparentemente desnecessários dada sua jovem idade. Futuros, pessoais ou coletivos, também são uma questão de escolhas. Escreve aqui um ex-paulistano que adotou Botucatu como seu lugar porque viu aqui na cidade e região muitas coisas boas acontecendo ainda, e perdidas em Sampa por pura ganância imediatista. Conhecendo como era e o que houve, como conheci, não tem como ficar quieto diante das nefastas consequências das escolhas erradas para um lugar: Minha ex-cidade, antes lindamente banhada em águas, agora inundando e sem água? Precisamos mais do mesmo?
É de escolhas nosso caso em Botucatu, nessa hora: Entre uma cidade que respeita seu passado, desenvolvendo suas tradições de modo dinâmico, em vez de enterrá-lo em homenagens post mortem; entre uma relação com a terra com o conhecimento contemporâneo sobre pessoas e seu ambiente, em vez de tratá-la como mero estoque de negócios; entre um modo de vida urbana focado no desenvolvimento da comunidade, em vez de suporte para o consumismo de modas; enfim, entre buscarmos as soluções corretas, mesmo que inicialmente distantes, ou atender a conveniências pessoais de momento - e nada termos a dizer a filhos e netos quando, no futuro, nos perguntarem como pudemos deixar que acontecesse daquele jeito, se...

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Pôla Pazzanese, arquiteto urbanista (1981), escritório próprio (1980), arquiteto EDIF-SSO-PMSP (1982/84), professor da disciplina ´projeto arquitetonico´ (1991), um dos fundadores, 1º coordenador pedagógico, professor das disciplinas ´infraestrutura urbana e predial´ e orientador ´TFG´ da faculdade de arquitetura ´escola da cidade´(1996/2008), projetos de arquitetura de interiores, edificações e desenho urbano, nas áreas de habitação, educação, serviços, comércio e patrimonio histórico.


*1- ATENÇÃO: O Instituto Botucatu  irá promover, durante julho de 2015, 3 encontros abertos para quem se interessar em ampliar seus conhecimentos sobre os assuntos aqui tratados. Avisaremos aqui no blog Alô Bairro Demétria! assim que fecharmos as datas com os palestrantes. Salientamos, contudo, que todos já estão com sua participação confirmada. Aguardem as datas!

28 de junho de 2015

A Revisão do Plano Diretor de Botucatu. 3 - Onde a onça bebe água

3º post da série de 4 ( o próximo, com sugestões, sai daqui uns dias! Não percam!) que estamos publicando aqui para contribuir com a reflexão sobre o processo de revisão do Plano Diretor de Botucatu que ora está em pauta. Leiam, reflitam, compartilhem!Abaixo algumas críticas conceituais bem objetivas à revisão que foi apresentada pelo executivo (clique Aqui e depois em "Termo de Referência" para ler) para apreciação da população nos últimos dias.



Onde a onça bebe água...(por Pôla Pazzanese)

Um Plano bem calibrado dá suporte mais eficaz a políticas mais amplas e, quando isso não ocorre, a economia de uma cidade e seu território se desequilibram, isto é, favorecem apenas parcialmente      - ou pior, sobrecarregam – o sustento das pessoas (recursos humanos), dos recursos materiais e recursos naturais.O sistema então se desequilibra sócio-ambientalmente: O eco de "economia" é o mesmo eco de "ecologia", e quer dizer "casa", assim essa casa-cidade-lugar vira um problema de gestão, para si mesma e seus moradores, se suas partes começam a crescer travando qualidades que não só podem se beneficiar mutuamente como melhoram seu sistema de vida inteiro.
 A análise inicial do PDP-2015 vem nos mostrando que, mesmo que haja avanço em alguns pontos, ele é mesmo uma revisão, logo todos os itens do plano proposto que não melhoram (ou até pioram o existente) ou trocam itens por outros que indicam a prevalência de atendimento a interesses estritos de grupos sobre necessidades e possibilidades mais amplas de seus habitantes e seu território, precisam ser muito mais bem discutidos por todos na cidade.
Do ponto de vista urbanístico, olhando a partir do tecido urbano (que é o foco do mercado imobiliário, por exemplo), várias coisas apontam para uma ideia de ocupação e crescimento bastante problemática para a cidade e seu território, e por isso em contradição com o significado de desenvolvimento sustentável:
1- Para que essa visão de crescimento se realize, e o exposto nele não só torna definitivas ações iniciadas recentemente, como indica a ocupação de ainda mais território do município, é preciso condições de crescimento populacional e econômico que não existem mais: A população está reduzindo seu crescimento -está envelhecendo, a natalidade caindo, a educação aumentando-, os fluxos migratórios se invertendo do Sudeste para o Norte/Nordeste/Centro-Oeste do país, a economia de SP está deixando de ser o único motor do país e tendo concorrência de outras regiões, a geração de renda está saindo das grandes e concentradas indústrias (apoiadas por grandes quantidades e fluxos de insumos) para estruturas menores e mais ágeis de serviços e comercio, e novos tipos de indústrias também (apoiadas em conhecimento), e por aí segue.
E, claro, se Botucatu pudesse crescer assim, o mesmo aconteceria com Bauru e proporcionalmente ao tamanho dela, o que significa que quase encostaria aqui - como ocorre com Campinas engolindo tudo à sua volta - e nos tornaríamos um mero anexo de lá. E, com isso ocorrendo, adeus autonomia política, econômica e cultural local.
2- Por causa dessa visão parcial, é baseado no crescimento espacial extensivo, da malha urbana aumentando a porção de território ocupada por terrenos, edificações e ruas da cidade-, enquanto é visível a quantidade de lugares vazios urbanizáveis tanto entre bairros próximos ao centro, ou nas áreas da ferrovia, ou ainda entre bairros da borda da cidade. Esse tipo de crescimento leva Botucatu, por exemplo, perigosamente próxima aos locais de seu suporte ambiental, como as bacias de alimentação e drenagem de águas, ou locais de sua segurança alimentar, como os sítios e fazendas que plantam sua comida local. Para um desenvolvimento realmente sustentável devemos implantar outras soluções para se evitar isso, pois há muitas existentes e já testadas na realidade.
3- É visível também que é um projeto rodoviarista, porque depende demais da construção de grandes vias, prevendo até avenida marginal colada no Rio Lavapés (o mesmo erro de Sampa com
seus rios) e um anel viário levando tráfego por cima de outras bacias de rios e até para as Cuestas... Enquanto a trama urbana atual, com o tratamento correto de sua infraestrutura, é mais do que suficiente para o crescimento adequado porque pode ser concentrada no aproveitamento diversificado de seus muitos vazios e apoiada nos muitos modos de transporte público moderno, permitindo se realizar um desenvolvimento local de tipo contemporâneo, com menos investimento em expansão da malha viária - e sua consequente dispersão de infraestrutura: mais extensão e espalhamento das redes de energia, de iluminação pública, de água e esgoto, de comunicação e dados, transporte público, de segurança pública, de equipamentos e serviços públicos etc..
4- Do exposto acima decorre a ideia de crescer no setor onde a Mal. Rondon encontra a Castelinho, pensando em fazer dali um tipo de fachada da frente da cidade (centro cívico, shopping, condomínios de alto luxo etc., todos perfeitamente ilhados e aonde se chega e se vai só de carro). O que, claro, vai pressionar a região dali à Gastão dal Farra a ser loteada para lhes prover serviços - como já se pode ver hoje. Um velho mecanismo esse: Crescerem áreas mais pobres na esteira da valorização da área mais nobre próxima, como ocorreu na zona Sul de Sampa (de Santo Amaro a Interlagos, uma região que era linda) em relação aos Jardins, Morumbi e Itaim-bibi/Vila Olímpia. Por isso, por exemplo, os 500m2 de divisão propostos numa nova zona (que já é uma subdivisão do atual), e não os 4.000m2 atuais (que seguram a ocupação na dimensão e quantidade corretas para o contexto ambiental dali, como corretamente definido no plano existente), precisamente, também, o mesmo erro que cometeram no entorno das represas Billings, Guarapiranga e Cantareira, os 3 grandes reservatórios de Sampa (quando sabemos hoje que a situação das águas em São Paulo está longe de ser considerada boa).
5- Vai seguir cometendo o mesmo erro de iniciativas em outros governos, onde grupos criaram áreas afastadas que obrigaram a cidade a ir atrás com infraestrutura, deixando muitas áreas vazias entre uma região e outra, esperando uma valorização que nunca chegou e, por isso, desocupadas até hoje (porque no governo seguinte outro grupo fez a mesma coisa, em outro lugar da cidade...). O anel viário, por exemplo, claramente induz ocupação em torno da cidade, criando uma faixa loteável de, pelo menos, 1.000 a 2.000m de cada lado dele (10 a 20 quadras, algo como os loteamentos já lançados na Gastão dal Farra). Se projetarmos essas dimensões onde ele passa, à volta da cidade e indo até a borda da Cuesta, vemos com precisão os vários "vazios" que isso gera. E, na ocupação de alguns vazios existentes, ainda considera o isolamento de locais exclusivos para habitação de interesse social, como se fossem ilhas de pessoas e grupos, em vez de conjuntos com ofertas das diversas necessidades da vida urbana moderna.
6- Ao dividir a cidade em uma "do futuro", indutora de crescimento extensivo, e uma velha, central e, por causa da nova, tendo que correr atrás dos investimentos, cria dois problemas no fluxo econômico e fundiário de uma cidade:
Um de afunilamento do mercado imobiliário, criando gargalos no fluxo do capital urbano. Porque quando se separa a cidade em bolsões exclusivamente ricos e outros exclusivamente pobres, num lugar de tamanho restrito como Botucatu, demora muito mais para quem investiu retornar o investimento (os sucessos iniciais logo esgotam a alternativa) e para o público encontrar lugar adequado às suas necessidades (e não somente às necessidades de marketing...). Nesse quesito os arquitetos e urbanistas da cidade, por exemplo, vivem no seu dia-a-dia o tanto que isso restringe um mercado de trabalho potencialmente grande.
Outro de "exclusivamento" nos investimentos públicos, isto é, o dinheiro colocado num lugar (setor de bairro, região etc.) não serve para o outro porque, seguindo essa lógica, um lugar precisa se manter completamente separado, em tudo, do outro. Essa ideia de mercados e rentabilidade de investimentos, privados e públicos, associados em alguns locais mas excludentes no geral, é contraproducente para o conjunto duma cidade com o tamanho do mercado de Botucatu, pois restringe seu alcance no tempo e no público beneficiado.
6- Finalmente, não apresenta caminhos de como superar as distancias de hoje, nas leis da cidade, entre o que está escrito nelas e as práticas usuais de todos, a começar do poder público. Esse é o principal motivo pelo qual no Brasil leis urbanas tornam-se letra morta, pois não são feitas como construções técnicas para acordos e pactos públicos, baseadas no atendimento de necessidades reconhecidas e acordadas por todos. E daí terminam por vezes restritas a interesses imediatos, nos quais a base técnica, mesmo que exista, é pouco reconhecida como ferramenta de controle e ação integrada, como vemos em muitas cidades brasileiras. Observem que sequer foram feitas, até hoje, várias leis complementares do PDP-2008, que o teriam tornado minimamente efetivo. E assim se abre espaço para que interesses de curto prazo criem problemas de longo prazo:
Sobre este problema, na área ambiental, tem havido manifestações em várias publicações recentes na Internet que valem a pena serem lidas, por virem de pessoal muito qualificado no assunto, e que o explicam muito melhor do que eu poderia neste espaço. Já na parte de patrimônio histórico, mesmo citada no atual e na revisão, um exemplo é o das várias ruas que ainda contam com conjuntos de belas construções do período do café e onde uma delas é derrubada para se construir um desses galpões de 3 paredes e uma cobertura, próprios para um comércio ligeiro do tipo "$1,99" (cujos negócios tem duração no tempo, e na renda do aluguel, também "1,99"...). E com isso desvalorizando não só o potencial de ocupação qualificada que o entorno permitiria como, ao se somarem várias dessas mudanças na mesma rua ao longo do tempo, até a própria região em que estão. O oposto do que vemos, por exemplo, no bairro de Palermo, em Buenos Aires, ou em diversas cidades de Minas Gerais, onde o valor histórico é trabalhado, recuperado e adaptado, arquitetônica e urbanisticamente, como valor de diferenciação nos negócios locais. Na área do turismo, o equivalente disso seria como se as leis seguissem a moda atual do turismo de aventura: Lugares de beleza paisagística ou bucólicos recantos rurais teriam assim estimuladas a sua invasão por veículos e turistas de ocasião, sobrecarregando desde estradas vicinais de uso no escoamento da produção local a sistemas microambientais que não suportam tal uso. Porque este turismo é sempre pensado como turismo de eventos (anúncio>consumo>partida), e não de estância (informação>degustação>estadia), condicionando que, quando passa a moda (porque sempre passam), restam locais destruídos, desvalorizados e esquecidos, e leis sem sentido algum para eles.
Vemos assim como se alimentam alguns dos motores econômicos que empurram as cidades a desperdiçar seu patrimônio histórico e ambiental, perdendo oportunidades excelentes para melhores serviços, negócios, políticas e qualidade de vida. E nem chegamos na ferrovia ainda, não só seu grande patrimônio, mas mais uma excelente oportunidade para Botucatu.
Na última postagem, tentaremos ver algumas propostas para essa e outras potencialidades de Botucatu, algumas locais e já existentes há tempos, para tentarmos evitar aqui o tipo de desenvolvimento urbano que foi o erro de SP, Campinas, Bauru etc., e nos inspirarmos em soluções bem-sucedidas de cidades como Curitiba, Guararema, e até da histórica São João Del Rei, entre outras.

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Pôla Pazzanese, arquiteto urbanista (1981), escritório próprio (1980), arquiteto EDIF-SSO-PMSP (1982/84), professor da disciplina ´projeto arquitetonico´ (1991), um dos fundadores, 1º coordenador pedagógico, professor das disciplinas ´infraestrutura urbana e predial´ e orientador ´TFG´ da faculdade de arquitetura ´escola da cidade´(1996/2008), projetos de arquitetura de interiores, edificações e desenho urbano, nas áreas de habitação, educação, serviços, comércio e patrimonio histórico.

25 de junho de 2015

Revisão do Plano Diretor de Botucatu. 2- Botucatu e as escolhas certas. Ou não.

Este é o segundo de alguns posts que estaremos publicando com o intuito de fomentar a reflexão sobre a atual revisão do Plano Diretor de Botucatu. Sejam bem vindos e pensem junto conosco!


foto: citybrazil.com.br


Botucatu e as escolhas certas. Ou não. (por Pôla Pazzanese)
                                               
Quando uma cidade faz ou revê um Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano ela estabelece a hora mais adequada para construir seus pactos sociais, políticos e econômicos mais amplos, trabalhando os meios de seu desenvolvimento para que convivam em harmonia e estabelecendo os locais e modos em que interesses conflitantes possam ser discutidos para se chegar a soluções negociadas. Sua proposta de Revisão atual não supera sérias contradições existentes entre seus discursos e certas práticas  -algumas recentes- da gestão urbana, que poderiam ser resolvidas num processo mais amplo. O que certamente seria muito melhor para todo mundo em Botucatu, desde a política local, passando pelo mercado imobiliário, pelas instituições da cidade e estado, pelas elites intelectuais, religiosas e econômicas, pelas questões ambientais, chegando a suas cidadãs e cidadãos mais humildes.
Deve ser a ocasião para definirmos todos juntos que lugar é esse em que vivemos, como vivemos nele, o que precisamos para cuidar e melhorar nosso dia-a-dia, e o que esperamos dele como um lugar, onde todos podem ser ouvidos e cada grupo e cada canto da cidade pode ser reconhecido, não só pelas pessoas dali mas por todos os outros habitantes, seus vizinhos. É a hora em que todas as pessoas podem conhecer o que há de melhor, nas melhores técnicas e saberes contemporâneos, que possa ser mobilizado a favor de todos no lugar em que vivem. E podem, também, aprender muito sobre coisas que normalmente são só pouco percebidas no seu dia a dia, mas interferem diretamente nele, suas vivências, lazer e negócios.
Porque todos, sem exceção, sofrerão alguma consequência de um plano pouco desenvolvido e compreendido: Uma situação exemplar e conhecida por muitos frequentadores do Litoral Norte de SP, por exemplo, é a daquelas praias lindas, algumas até "exclusivas" e... poluídas porque as redes de água-esgoto, e seus muitos rios, não dão conta da ocupação desordenada.
Para entender algumas dessas consequências, vamos observar melhor coisas que já ocorrem hoje, entre elas, algumas práticas que serão erroneamente adotadas como modelos ou padrões de desenvolvimento, se o PDP 2015 se realizar com a abordagem que tem hoje. Atualmente, embora haja boa base de dados e pesquisas para embasar o Plano no município, em vários pontos ele não reflete tais informações em suas proposições, pois as mesmas não enfrentam certas contradições já existentes na gestão da cidade.
Por exemplo, começando do centro da cidade, observem o belo espaço público defronte a Catedral, usado hoje para as grandes festas da cidade. Este espaço é o grande centro cívico de Botucatu, completo, com as instituições que configuram, administrativa e simbolicamente, uma cidade: centros religiosos, escolas e instituições públicas, a sede do Governo local etc.. Condição que o que o torna um centro republicano por excelência, belo exemplo de desenho urbano do estabelecimento da República no país, e ainda sustentando todo um grupo de serviços, comércio e habitações ligados a ele e seus usuários. Por isso é o coração (cuore) da cidade e sua vida pública: Acessível para sua população por diversos meios de transporte e até a pé, visível de quase toda ela, e muito querido por todos.
O seu caráter de representatividade institucional está sendo abandonado, administrativa e simbolicamente, por um pretendido novo lugar, distante do centro, pouco visível pela cidade, acessível somente por veículos motorizados, isolado entre estradas. E por isso esse nobilíssimo espaço da Av. Don Lúcio vai sendo desperdiçado, criando usos conflitantes em tipo e tamanho de atividades: A perda de sua dimensão simbólica o deixa a disposição de usos sem os aspectos estruturantes de uma cidade, daí o conflito que todos já acompanhamos, com a perda dia após dia de sua identificação popular e histórica.
O problema nesse centro urbano, capital para a cidade, nos leva assim a 2 outros: Um, à falta de um espaço público digno das grandes festas que a cidade merece, outro, mais importante no contexto aqui, já indo para fora do centro da cidade, a ideia de que o pretendido novo centro cívico, onde já se situa o novo Fórum, contribuirá para o desenvolvimento da cidade naquela direção, "pulando" a rodovia Mal. Rondon.
A ideia de centros cívicos como indutores de desenvolvimento urbano vem dos anos 1950, 60 anos atrás (!), quando ainda não se entendia direito como e porque certos lugares e certas cidades deixam de funcionar. Desde os 1ºs lugares realizados assim, pelo mundo, muito se discutiu e estudou, em pesquisas e levantamentos, constatando-se que esse modelo: a) isola o poder público numa verdadeira ilha urbana, b) onera o investimento público por se distanciar da infraestrutura existente, c) apressa o abandono e degradação de centros antes vivos das cidades, d) elitiza e torna excludentes ou inacessíveis partes grandes de cidades, e) espalha a cidade deixando vazios desvalorizados em muitos lugares dela, entre outras.
Isto fez as grandes, médias e pequenas cidades, atualizadas nas melhores técnicas de gestão urbana, abandonarem esse tipo de plano já nos anos 1960. E as que não o fizeram, como diversas cidades na Espanha que seguiram na esteira de grandes movimentos imobiliários dos anos 1990/2000, ainda hoje sofrem estas consequências desde sempre constatadas.
Estes efeitos ocorrem, no mais das vezes, porque esse tipo de crescimento precisa de muito investimento [público e privado] em infraestrutura para essas novas e distantes áreas, e para isso ocupa plano e verba dos outros lugares das cidades, na expectativa de se equilibrar o atendimento de ambas as demandas a tempo. Mas esses investimentos precisam de um processo específico de crescimento econômico e populacional (e uma continuidade política incomum no Brasil), para se realizar no tempo correto de retorno político, econômico e estratégico. E a cidade não vai ter como arrecadar isso no tempo que pretendem, por causa dos motivos que serão mais bem analisados na próxima postagem.
Na proposta de Revisão do PDP feita agora, inclusive, essa zona da cidade é definida como de expansão urbana, sem zonas de transição e amortecimento (como no plano vigente) em relação à zona definida como de atenção hídrica, do lado dela, na qual ainda está na APA-Botucatu, ou seja: Imagina-se que a expansão da cidade simplesmente irá parar ali, parando nessa borda suas ruas, quadras, casas, comercio etc., para dar lugar à protegidas áreas verdes, como está nas plantas do plano, ou para a ocupação que já vem sendo feita ali, com enormes conjuntos de casas populares, galpões etc.?
E ainda com um anel viário e avenida de pistas duplas como eixos de estrutura viária de acesso mais fácil. Note-se aqui o processo de se transformar uma estrada vicinal, a Gastão dal Farra, numa avenida de acesso e escoamento de tráfego de toda uma região, erro grave de transito similar ao das periferias de Sampa, onde se perde a fluidez da estrada como ligação, e cria-se um verdadeiro funil de fluxo numa via não projetada junto com o sistema viário de seu entorno.
Observo isso nesta área da cidade, que conheço melhor, e nas demais certamente tem gente mais qualificada para observar coisas similares. Precisamos ouvi-las também, nesse processo.
Botucatu tem características que a diferenciam das demais grandes cidades do centro do estado: Do café aos caminhos de tropas e trem, do ensino e pesquisa às indústrias de alta tecnologia, da Cuesta às águas urbanas, um sistema de saúde cobrindo toda a cidade, uma proporção entre tamanho de população e território ocupado perfeitamente adequada, um natureza ainda exuberante e próxima, até o fato de que vem se tornando um polo de irradiação da comida orgânica, e ainda um grupo de pequenas cidades conectadas a ela pelo Polo Cuesta. Muita coisa que pode ser mais bem direcionada pelo conhecimento moderno num plano regional estratégico e ambientalmente adequado.
Temos muita cidade e território ainda por ser mais bem apropriados. E, com isso, vermos como evitamos muitas das causas que normalmente nos levam a empurrar as cidades a, literalmente, devorar seu meio-ambiente.

E porque não bastam apenas boas leis, precisa mesmo é ampliar a Cultura que as cria, e só se amplia cultura se se emprega as ferramentas econômicas adequadas para o que uma análise mais ampla nos permite enxergar de um determinado contexto. Porque é de Economia que se está falando, quando se trata a fundo dessas coisas. Que é só o que importa, ainda e infelizmente...

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Pôla Pazzanese, arquiteto urbanista (1981), escritório próprio (1980), arquiteto EDIF-SSO-PMSP (1982/84), professor da disciplina ´projeto arquitetonico´ (1991), um dos fundadores, 1º coordenador pedagógico, professor das disciplinas ´infraestrutura urbana e predial´ e orientador ´TFG´ da faculdade de arquitetura ´escola da cidade´(1996/2008), projetos de arquitetura de interiores, edificações e desenho urbano, nas áreas de habitação, educação, serviços, comércio e patrimonio histórico.

21 de junho de 2015

Revisão do Plano Diretor de Botucatu. 1-Entrando no assunto.

Este é o primeiro de alguns posts que estaremos publicando com o intuito de fomentar a reflexão sobre a atual revisão do Plano Diretor de Botucatu. Sejam bem vindos e pensem junto conosco!

Foto: de autoria desconhecida
Imagina só se em Botucatu... (por Pôla Pazzanese)                                                                                                          
...a Rua Amando de Barros, a mais movimentada da cidade, pudesse ficar sem carros, com as pessoas a andar sossegadas em calçadas largas e com uns bondes modernos passando pelo meio da rua e parando em abrigos bonitos. E as fachadas dos muitos casarões ainda originais sem os letreiros em cima, bonitas como antigamente (e as outras lojas com tratamento tão digno quanto). Imagine que quem veio longe de carro tem estacionamentos perto, digamos a cada 5 quadras, e os bondes da Amando indo de ponta a ponta, com cada uma delas ligada ao resto da cidade por ônibus frequentes. Como se faz, por exemplo, em muitas cidades europeias.
Ou as margens dos rios, uns 10 km deles que passam dentro da cidade, arrumadas, com passeios para gente, bicicletas, cheias de equipamentos de ginástica e lazer, com os quintais das casas abertos para esse jardim lindo, várias delas com comércios aproveitando o movimento. Imagine que essas margens, suas árvores, nascentes etc., são ligadas por ruas arborizadas aos bairros em volta. E onde dá até para pescar, de tão limpos e cuidados os rios. Como se faz, por exemplo, em Kyoto e várias cidades do Japão.
Ou também que uma das mais originais características de Botucatu, sua Educação e Cultura, tornou-se base importante de seu desenvolvimento econômico, abrigando gente do Brasil e do mundo para estudar em seus campi, centros de pesquisa, seus museus, e até sua natureza. Quase como, por exemplo, Heidelberg, na Alemanha, que tem a mesma população que Botucatu e uma paisagem tão legal quanto.
Imagine então que a cidade prefira crescer para dentro (qualidade de vida), em vez de para fora (quantidade de problemas), preferindo melhorar todos os seus bairros com mais transporte público, serviços, comercio, educação, cultura, comida, vegetação. E tem a inteligência de crescer concentrada e bem distribuída, sem cometer o erro de Sampa, colando os prédios altos uns nos outros (aqui já tem essa inteligência de poucos prédios altos por cada quadra), ou Bauru e Campinas, que espalharam sua periferia pela região com loteamentos/condomínios cada vez mais longe de tudo.
E que Botucatu, com as suas freguesias rurais, adequadas com o que há de mais moderno ambientalmente (e com internet, ainda), cria em torno de si um colar de bairros rur-urbanos (que juntam o melhor do rural com o melhor do urbano), completos para se viver, trabalhar, estudar, passear etc., em vez de bairros-dormitório, onde todo mundo tem que sair deles de manhã, só voltando de tarde ou de noite. E ainda tem que sair deles para se divertir e encontrar gente nos fins de semana.
Imagine ainda que Botucatu sabe reconhecer tão bem seu lugar, com sua natureza plena de águas, plantas, pedras e comida, que aprende a investir na sua apropriação econômica, se estabelecendo como um centro de referencia de pesquisa e desenvolvimento para sua preservação e da integração dos frutos desse conhecimento da natureza em seu desenvolvimento, virando o lugar da economia baseada em fontes renováveis, na comida orgânica, na pesquisa em ecologia, na tecnologia ambientalmente adequada. Meio como em Boulder, no Colorado, EUA, que tem o dobro de gente que Botucatu, preza sua Universidade tal e qual, e cuida com carinho do seu meio-ambiente desde os anos 1960.
E tudo isso só melhorando o que a cidade e seu território já tem de bom.

Isso parece ainda muito difícil e distante? A seguir vamos ver que não é tão difícil e distante como parece e como o Plano Diretor de Botucatu, se melhor discutido, pode nos levar muito mais perto disso tudo pensado acima.

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Pôla Pazzanese, arquiteto urbanista (1981), escritório próprio (1980), arquiteto EDIF-SSO-PMSP (1982/84), professor da disciplina ´projeto arquitetonico´ (1991), um dos fundadores, 1º coordenador pedagógico, professor das disciplinas ´infraestrutura urbana e predial´ e orientador ´TFG´ da faculdade de arquitetura ´escola da cidade´(1996/2008), projetos de arquitetura de interiores, edificações e desenho urbano, nas áreas de habitação, educação, serviços, comércio e patrimonio histórico.